quarta-feira, 30 de abril de 2014

Nas teias do Homem-Aranha

Um dos heróis do século passado que ganharam evidência cinematográfica nos últimos dez anos foi o Homem-Aranha. A palavra "aranha" remete ao latim aranea. Havia muita desconfiança contra o aracnídeo, ser considerado traiçoeiro. Erasmo de Rotterdam chegou a registrar esta frase: "Aranearum telas texere", referindo-se aos sofistas que tecem argumentos como a aranha tece a sua teia.

O ser fascinante que desenha no ar a sua teia-armadilha humanizou-se, tornou-se defensor dos fracos, lutando contra criminosos não menos bizarros. Em inglês, spider tem a ver com o verbo to spin, "fiar", "tecer". A frase "the spider spins skilfully" é uma redundância. Como se disséssemos em português: "o tecelão tece o tecido".

O Espetacular Homem-Aranha
O Homem-Aranha nasceu Spider-Man e envolveu o mundo moderno com sua teia: Uomo Ragno em italiano, Hombre Araña em língua espanhola, Homme Araignée em francês, Spinne em alemão e... Hämähäkkimies em finlandês (só não me perguntem como se pronuncia e qual é a origem dessa última!).

terça-feira, 22 de abril de 2014

O santo que matou o dragão

São Jorge, um dos santos mais venerados no mundo. O santo guerreiro tornou-se padroeiro de países como Inglaterra, Lituânia, Sérvia, Etiópia e de cidades como Londres, Barcelona, Gênova, Moscou e Beirute. Dia 23 de abril (em que se recorda o seu martírio) é feriado no Rio de Janeiro.

Não renegou a fé cristã durante a sangrenta perseguição ordenada pelo imperador Diocleciano no início do século IV. Foi torturado até a morte. Lutou corajosamente. Venceu o dragão da maldade. No candomblé, São Jorge é identificado com Ogum. Os devotos de Jorge e Ogum querem ser fortes e vitoriosos.

Para vencer o dragão é preciso saber quais são os seus poderes etimológicos. A palavra está associada ao latim draco, que se relaciona com o verbo grego derkomai, "ver". O dragão é aquele que consegue enxergar a sua presa a uma grande distância. Como ser demoníaco, está sempre de olho em possíveis vítimas. Para vencê-lo, portanto, temos de desenvolver a visão da fé. Com a ajuda de São Jorge, é claro!

domingo, 13 de abril de 2014

A cruz crucial

A impiedosa tortura e morte lenta de alguém pendurado numa estaca era prática conhecida desde o século VI a.C. entre povos asiáticos. Os romanos a aprenderam e adotaram. Escravos rebeldes, traidores e ladrões eram punidos assim. Jesus Cristo é o mais conhecido dentre os que padeceram o suplício da cruz. Até hoje, em alguns lugares do mundo como Arábia Saudita, Irã, Birmânia e Sudão, crucificar alguém é, na melhor das hipóteses, uma possibilidade prevista em lei.
A Crucifixão (detalhe),
de Matthias Grünewald (século XVI)
A palavra crux, em latim, não se referia estritamente à cruz como a visualizamos hoje (dois toros transversais) e que se tornou o símbolo maior do cristianismo.


Crux immissa ou cruz latina
Havia tipos diferentes de cruz. Uma primeira diferença existia entre a crux simplex e a crux compacta. No primeiro caso, tratava-se de um objeto vertical de madeira, uma viga, ou mesmo um tronco de árvore. O condenado era amarrado com cordas nessa cruz, ou nela empalado.

Já a crux compacta podia ser decussata (em forma de X), commissa (em forma de T) ou immissa (a chamada "cruz latina", cuja travessa fica acima da metade da haste). Esta, a immissa, é a que conhecemos como sendo a cruz em que Jesus (cordeiro pascal) foi pregado.

Especula-se que a palavra latina crux (passando pela forma colux) veio do termo grego σκόλοψ (skólops), que significava "estaca", "enxadão", "cruz" e outros tipos de objetos que pudessem provocar uma dor pungente.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Golpe dói

Todo golpe dói. Golpe de esperteza (um ardil praticado por um golpista, como no conto do vigário ou no golpe do baú), golpe de luta, golpe de ar ou golpe militar. E de onde vem o golpe, mesmo que seja um golpe de mestre?

No latim vulgar, *colpus indicava um movimento de força, mais especificamente uma bofetada ou um murro no rosto, remetendo ao latim clássico colaphus, que proveio do grego kólaphos.

Em francês, temos a palavra coup, de mil e uma utilidades e desdobramentos. Além do coup d'État, "golpe de Estado" (tomada ilegal do poder governamental pela força), uma bofetada na democracia, temos, entre vários exemplos: coup de grâce ("golpe de misericórdia", ou "tiro de misericórdia", que consiste em dar um ponto final ao sofrimento de um moribundo), e a palavra coupon, o nosso "cupom", folha ou cartão que se pode destacar mediante um coup, isto é, um movimento que implica certa força.

terça-feira, 18 de março de 2014

Um olhar para a Ucrânia

A história da Ucrânia, especialmente nos últimos 100 anos, tem sido marcada por grande instabilidade política, invasões e chacinas, por indefinições, conflitos, crises econômicas, lutas terríveis. A liberdade do povo em constante perigo e muitas vezes suprimida. Lembremos que a família Lispector foge de lá para o Brasil (sorte nossa porque nos trouxe Clarice).

Terá o nome do país, do ponto de vista etimológico, algo a nos dizer a respeito dessa acidentada história?

Indo o mais longe possível, o nome Ucrânia vai nos levar à raiz indo-europeia *krei, que reporta à ideia de "cortar". A palavra grega krínein está em relação com essa raiz e significa "decidir". Toda decisão implica cisão, corte, rompimento. Aparentada, no latim, temos a palavra cernere ("discernir"): todo discernimento provoca definições e delimitações.
Bandeira da Ucrânia
O termo eslavo krajina (também "descendente" da raiz *krei) refere-se à fronteira de um país ou a uma região delimitada. Para que se defina uma região é preciso fazer um corte, definir que até aqui é tal coisa e que a partir daqui é outra coisa.

No antigo polonês, por volta do século XVI, Ukrajina referia-se a territórios que coincidem, em parte, com a atual Ucrânia. Mas foi somente no século XIX que os habitantes da região assumiram o nome oficialmente, não se referindo a um território delimitado em geral, mas ao seu país mesmo. De fato, em ucraniano moderno, країна (Україна é Ucrânia nesta língua) significa justamente isso: país. Indica justamente esse desejo: soberania.

sábado, 15 de março de 2014

Ansiedade em qualquer idade

Entre as doenças candidatas a definirem o perfil patológico do século XXI está a ansiedade. Livros com essa palavra tendem a ser ansiosamente comprados. Esperamos com ansiedade que nos digam, o mais rápido possível, o que fazer para não ficarmos ansiosos... Sentimos a ansiedade presente em toda parte e em gente de todas as idades.

Um piadista me dizia outro dia: "Se você não tem ansiedade provavelmente há algo de muito errado com a sua saúde!". Mas a palavra, tão frequente hoje, de hoje não é. O poeta latino Ovídio (43 a.C. - 17 ou 18 d.C.) conhecia a anxietas animi, a preocupação profunda e angustiante, que torna  a alma pesada... e a vida mais atrapalhada do que já é.

No latim, anxietas remete ao verbo angere: "apertar", "espremer". A ansiedade provoca um aperto interior. A mente se sente esprimida. O coração comprimido. Dores por dentro e por fora se multiplicam. E o motivo, em geral, tem a ver com as incertezas do futuro. Ficamos ansiosos quando antevemos e antecipamos os maiores problemas. Inclusive aqueles que são gerados pela própria ansiedade!

Remontando à raiz indo-europeia *angh-, vamos encontrar a origem das noções físicas e anímicas relacionadas a este cúmulo de sofrimentos. No latim, as angustiae são os desfiladeiros, que nos deixam nervosos só de imaginar... E as aflições morais estão na mesma categoria do mundo estreito e sufocante.

É por isso que o melhor mesmo é relaxar... No latim, relaxare indicava o ato de soltar, livrar alguém da dor.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Os garis estão chegando

Coletar e remover o lixo urbano sempre foi um sério problema. Quem quiser conhecer um pouco dessa história, leia o interessante livro do professor Emílio Maciel Eigenheer - Lixo: a limpeza urbana através dos tempos.

No Brasil do século XIX, o trabalho literalmente sujo era feito pelos escravos com menos status. Era comum ver "cabungueiros" (de kibungu, palavra do idioma quimbundo que significava "latrina") equilibrando sobre as cabeças, em tubos ou barris, o lixo das casas (incluindo excrementos). Sua tarefa era jogar esse lixo em lugares distantes. Todos os dias!

O problema do lixo se tornou especialmente grave no Rio de Janeiro daqueles tempos. À medida que a capital do império crescia, mais sujeira se produzia. As ruas, por exemplo, estavam empestadas com a quantidade imensa de estrume que os cavalos (meios de transporte público e privado da época) deixavam pelo caminho. A vida dos pedestres era uma... miséria! (Faça os cálculos: um cavalo produz cerca de 10 quilos de fezes por dia...)

Entre as tentativas de solução, o Ministério Imperial, em 1876, contratou a Alexis Gary Cia., empresa especializada em limpeza urbana. Seu dono, o francês Pierre Alexis Gary, levava varredores uniformizados pelas ruas cariocas para realizarem o ingrato mas indispensável serviço. A "turma do Gary" fez sucesso. Em pouco tempo, o povão começou a chamar os varredores de garis.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Carona não é cara

carona é uma forma barata e inteligente de contribuir para melhorar o trânsito caótico das grandes cidades.

A palavra procede da expressão espanhola a la carona, que por sua vez remete ao latim caro ("carne"). No meio do caminho, o genitivo carnis ganhou uma forma popular, caronis, e daí foi um pulo para a palavra carona.

A la carona se refere ao que está em contato com a carne. Dizia-se, por exemplo, que alguns santos vestiam roupas finas, mas a la carona (isto é, por debaixo dessas roupas, na sua pele) usavam o cilício como forma de penitência.

Andar de carona é, portanto, um corpo a corpo. Quem dá carona permite esse contato com outra pessoa, em nome da solidariedade e de um trânsito mais humano.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Em busca da sorte

O livro PALAVRAS E ORIGENS está sendo sorteado no próximo dia 20 de janeiro (veja as instruções abaixo). Aproveitando a deixa: de onde vem a palavra "sorte"?

O sortudo será escolhido por sorte, palavra que vem do latim sors. Este termo possuía vários significados. Um deles era "quinhão", "parte", isto é, aquela "parte" que já está reservada no futuro para cada pessoa. Daí que sors também significasse "herança".

O pequeno detalhe é que não temos certeza de que a sorte sorrirá para nós. A sorte pode ser madrasta, alguns loucos abusam da sorte, e há quem a jogue pela janela. O fato é que para tirar a sorte grande (ou pequena) precisamos arriscar e tentar até encontrá-la.


Instruções para participar do sorteio:

DaLíngua Portuguesa, em parceria com a SaraivaUni, sorteará um exemplar do livro Palavras e Origens, de Gabriel Perissé.

PARTICIPE!

1 - Curta a página DaLíngua Portuguesa no Facebook (https://www.facebook.com/dalinguaportuguesa?ref=hl);
2 - Curta a página SaraivaUni no Facebook (https://www.facebook.com/SaraivaUni?ref=ts&fref=ts);
3 - Compartilhe o post da promoção, em modo PÚBLICO, no mural;
4 - Acesse o Sorteie.me na página DaLíngua Portuguesa (https://www.sorteiefb.com.br/tab/promocao/296829) e clique em “Quero Participar”.

BOA SORTE!
Sorteio: 20/01/2014

Sobre a obra: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=644572148897050&set=a.446120652075535.104506.419022991451968&type=3&theater

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Por gentileza!

Natal é uma festa a ser comemorada em clima de alegria familiar. Essa alegria deve irradiar-se e produzir gestos de fraternidade e gentileza.

No latim, gentilis era quem pertencia à mesma família ou clã. Podemos supor que entre pessoas unidas pelos laços do sangue é bem-visto que todos se tratem com respeito, com gentileza. Hoje, ser gentil é tratar todo mundo como gente.

No inglês, a palavra gentleman (que surgiu no século XIII) conserva a ideia de alguém cuja conduta se caracteriza pela boa educação, pelas palavras adequadas, pelas virtudes da convivência, pelos modos cavalheirescos.

No antigo francês, gentil significava "bem-nascido", alguém de família nobre (o que nem sempre significava ser gente fina, mas enfim...).

Voltando ao latim, gens, que designava o conjunto daqueles que possuíam origem comum, recebeu o sentido ampliado de "povo", "nação", "país". Daí a palavra "gentios", indicando os povos estrangeiros, os não civilizados do ponto de vista romano. Mais tarde, na concepção judaico-cristã, "gentios" serão os pagãos.

sábado, 21 de dezembro de 2013

O nascimento do Natal

O Natal é a comemoração do nascimento de Jesus Cristo, mas o dia 25 de dezembro não é a data histórica de sua vinda ao mundo. Aliás, não há indicações bíblicas a respeito. Foi a antiga tradição cristã que estabeleceu esse dia, reinterpretando a festa pagã em homenagem ao deus-sol.

No dia 25 de dezembro, comemorava-se o dies natalis Solis Invicti, isto é, o "dia do nascimento do Sol Invicto". Este Natal pagão radicava-se numa percepção meteorológica e astrológica. No dia 24 de dezembro, no hemisfério norte, os povos tinham consciência de que estavam vivendo o solstício do inverno: o dia do ano em que menos luz solar chegava à Terra.

Mas o dia mais escuro e frio é também o início de uma nova etapa. No dia seguinte, dia 25, o sol começava a voltar de sua descida mais profunda. O deus-sol renascia e vinha ao encontro de seus adoradores.

Para os cristãos, o verdadeiro Natal era o nascimento de Jesus, a luz do Alto que veio afastar as trevas do medo, aquecer nossos corações, revitalizar a esperança, salvar o mundo. A festa pagã foi sendo cristianizada. Ao ver que o hábito se impunha, o papa Libério, no ano de 354, determinou que em toda a Cristandade, no dia 25 de dezembro, seria celebrado o dies natalis Domini, o dia do nascimento do Senhor.

Ao contrário da Páscoa, que acontece em datas móveis a cada ano, o Natal é comemorado sempre no dia 25 de dezembro, mesmo no hemisfério sul, quando se está vivendo o solstício de verão. Ao contrário do que acontece no hemisfério norte, nós temos dias mais longos, mais iluminados, e nossas noites são mais curtas neste tempo de Natal.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Quem dá mais?

A ideia do leilão é antiga. Entre os latinos, a auctio consistia em ir a público vender um bem, à espera de quem oferecesse o maior lance. A palavra latina remete ao verbo augere ("acrescentar", "ampliar"). No inglês, temos a expressão auction off, "leiloar".

Já o nosso termo "leilão" procede, não do latim, mas do árabe vulgar al-alám, com os significados de "estandarte", "tabuleta" e "aviso". Colocava-se em local público e visível uma pequena bandeira vermelha, por exemplo, como convite para participação no leilão. O leilão precisa ser anunciado em alto e bom som para que todos tenham alguma chance de adquirir o que foi colocado à venda.

Em francês, a palavra para leilão é enchère. Nasceu no latim tardio incariare, formado pela partícula in e por carus, "caro". Aquilo que está em leilão é algo que vai sair caro para quem o deseja adquirir. Em espanhol, leiloar é subastar. Vem do latim subhastare, "vender em hasta pública".

sábado, 2 de novembro de 2013

O silêncio do cemitério

Há uma diferença, do ponto de vista etimológico, entre necrópole e cemitério.

Ambas são palavras que vêm do grego, mas com inspirações contrárias. Necrópole é a "cidade dos mortos", de nekrós ("morto", "cadáver"), pólis ("cidade"). A Necrópole de Gizé, no Egito, é um dos maiores exemplos da antiga arquitetura a serviço de um projeto post-mortem.

Para esta cidade se dirigiam o rei-defunto, a rainha e os sacerdotes do reino. A morte é uma viagem sem volta, e o faraó se preparava para essa jornada com imensa preocupação. Após a morte, deveria continuar reinando, mas agora sobre os demais mortos.

 
Já o cemitério possui uma outra conotação. O elemento "-tério" é um pospositivo do grego que se refere ao local onde se realiza o que é expresso pelo antepositivo. O monastério é o lugar onde ficam os monges. O presbitério é o lugar onde ficam os anciãos (os presbíteros). E o cemitério é o lugar onde as pessoas dormem, porque o antepositivo do grego koimétêrion ("lugar para dormir") é o verbo koiman ("dormir").

A palavra começou a ser usada pelos primeiros cristãos, que viam na morte um momento de descanso. Os mortos vão dormir, na esperança de saírem do túmulo. Preparam-se para acordar, tal como Jesus ressuscitado. O cemitério é lugar passageiro, silencioso, um dormitório para uma noite mais ou menos longa: o novo dia está por vir.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Notícias de Cuba

Sierra Maestra

A ilha de Cuba recebeu de Cristóvão Colombo, em 1492, um primeiro nome, Juana, em homenagem a Juana de Castilla, filha dos reis católicos, também conhecida como Juana la Loca. Mas o nome não "pegou".


Mais tarde, outro nome, Fernandinaapareceu em alguns mapas, sem maior repercussão. Santiago foi outra tentativa que não deu certo. Impôs-se o nome nativo, Cuba, derivado possivelmente de Ciba, do idioma taino (hoje extinto), com o significado de "montanha" ou "cheio de pedras", em referência à Sierra Maestra, como a conhecemos atualmente.


Outra hipótese é que, também no taino, havia as palavras Cubanacan ("lugar grande") e Cubagua ("lugar onde existe ouro"), e de uma delas teria vindo Cuba.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O obeso era magro

A palavra "obeso" vem do latim obesus, que significava "devorado", "comido", proveniente do verbo obedere ("comer demais"). Chamar alguém de obeso era dizer que estava muito magro, como se tivesse sido devorado por dentro (pela doença, por exemplo). 

Talvez tenha sido a ironia o que levou a palavra a significar o seu contrário. Nesta hipótese, a prática brincalhona de chamar o magro, isto é, o obeso, de gordo ("e aí, você está gordinho, hein?") levou a essa mudança de sentido. Estaríamos diante de um exemplo típico do que dizia Goethe: "toda palavra desperta o seu antônimo".

O processo em que o termo "obeso" passa a indicar quem tem obesidade pode ser comparado ao de outras palavras: "viajado", em lugar de "viajante", é quem viajou muito; "lido", em lugar de "leitor", é aquele que já leu muito.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Dando um tempo

Perguntaram-me recentemente a origem da palavra "tempo", e pedi um tempo para poder responder...

A palavra vem do latim tempus, que por sua vez deriva do grego témno, "cortar em pedaços", "dividir". Daí, por exemplo, a palavra "tomo" ("divisão editorial de uma obra") e "átomo" ("aquilo que não pode ser cortado", "indivisível").

O tempo é um corte. Por isso pensamos em minutos, horas, dias, meses e anos, "pedaços" de um fluxo que não cessa. São cortes com os quais procuramos nos posicionar e não perder tempo. Todo tempo é uma época, um período, um momento.

O temporal assim se chama porque dura apenas um tempo. E o templo (templum, em latim) é diminutivo de tempustempo: um pequeno espaço que "cortamos" para dedicar ao sagrado. E por isso damos um pouco do nosso tempo para o divino (que existe para além do tempo), ao entrarmos em algum templo.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O plebiscito e a plebe

Afirma-se com frequência que a expressão "plebiscito popular" é um pleonasmo. Em parte. Todo plebiscito é popular por ser a manifestação da opinião do povo...


No entanto, a etimologia nos lembra que plebs, em latim, se referia a uma parcela do povo (populus). O povo também incluía a classe nobre da antiga Roma. De qualquer forma, é verdade que, por serem os plebeus em maior número, a palavra plebs acabava "engolindo" a noção de povo. No uso comum, ainda hoje a palavra "plebe" é associada à classe social mais baixa da população.

Plebiscito vem da conjunção de plebs e scitum ("decreto"). A consulta popular resulta num decreto popular. Na Idade Média, uma versão especificava que o plebiscito referia-se a algo que o "povo sabe", em latim: plebs scit.

sábado, 15 de junho de 2013

Viajando como sardinha em lata

Os ônibus, os trens e os metrôs vivem lotados, e os passageiros se sentem dentro deles como numa lata de sardinhas. Nessas condições, espremidas, as sardinhas não se queixam. Mas nós devemos, sim, sair do aperto e reclamar nas ruas, quando, além de tudo, aumentam o preço desse desconforto. E há outros motivos e apertos embutidos nos protestos!



A palavra sardinha está, à primeira vista, associada à ilha da Sardenha. O escritor francês Alexandre Dumas, por exemplo, não hesitava em afirmar que por ser abundante nos mares da Sardenha, este peixe recebeu daí o seu nome. Centenas de autores dizem o mesmo.

No entanto, há divergências a respeito. Havia no latim o termo sarda, que incluiria diferentes peixes, entre eles a sardinha.

terça-feira, 9 de abril de 2013

O tomate não tem preço

O tomate é contribuição da América pré-colombiana. A palavra vem do náuatle (idioma dos astecas) xitomatl, que significava "tomatl grande, inchado". Xitomatl e tomatl, na verdade, eram dois frutos diferentes. O segundo era pequeno e verde, e o primeiro, maior e de cor vermelha. Mas ambos entravam na categoria de tomatl ("fruta suculenta"), que incluía outros frutos.

Quando por aqui chegaram, no século XVI, os espanhóis chamaram os dois tipos com a mesma palavra tomate, difundindo o termo e o alimento pelo mundo afora. No início, porém, os europeus usavam o tomate mais para ornamentar seus jardins do que para incrementar seus pratos. Havia também botânicos e médicos que investigavam suas propriedades curativas.

Nos países de fala inglesa, a resistência ao tomate como item da culinária foi ainda maior. Até o século XIX dizia-se, nos Estados Unidos, que era venenoso. Talvez a prática de jogar tomates em artistas como forma de reprovação tenha nascido dessa crença equivocada. 

Devemos à Itália a redescoberta do tomate como alimento, novas formas de cultivá-lo, condicioná-lo, e seu retorno à América, quando grande número de imigrantes italianos veio para cá a partir do final do século XIX. Mas já o tomate ganhara entre eles outro nome, pomodoro, proveniente da expressão pomo d'amore, isto é, "fruta do amor", em virtude de supostas qualidades afrodisíacas.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Depois da cambalhota

A cambalhota tem um antes, um durante e um depois. Instabilidade, primeiro. No meio do processo, surpresa. De pé outra vez, novo modo de caminhar. O corpo realiza uma revolução: os pés por cima da cabeça para retomar o chão em renovado ímpeto.

"Cambalhota", escultura
em bronze de P. Koshland.
A palavra remete ao latim cambiare, "trocar", "alternar", "transformar". 
A cabeça troca de lugar com os pés, operando uma mudança de visão. Há registros do termo cambalhota em textos desde o século XVIII, mas cambalhotas sempre aconteceram e mudaram rumos pessoais e coletivos.

domingo, 10 de março de 2013

O papa e a fumaça

É muito provável que, nesta semana, conheçamos o novo sumo pontífice da Igreja católica. Os cardeais, reunidos, nos dirão quem será o sucessor de Bento XVI.

Os papéis da votação serão queimados e pela chaminé de quase dois metros instalada na Capela Sistina sairá, ou uma fumaça branca, quando o papa for escolhido, ou uma fumaça negra, em caso contrário.
Fumaça é vapor que exala de um corpo em chamas. Este sufixo -aça indica aumentativo. Trata-se, portanto, de um vapor que chama a atenção.

Remete ao latim fumus. Que, retrocedendo ao sânscrito, desvela um significado ligado à vida: dhumah traz a noção de vapor, mas também de respiração. (Quando faz muito frio, soltamos fumaça pela boca, não é?)

Em latim, fumarium era "chaminé". E onde há fumaça branca... há papa.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Entre meteoritos, asteroides e cometas

O céu manda recados: um meteorito ali... um asteroide passando por lá...

São considerados meteoros os fenômenos da atmosfera terrestre: vento, chuva, trovão, arco-íris, neve etc. Coisas para a meteorologia observar. Um meteorito é o fragmento de um meteoroide. Vemos aqui a presença do termo grego meteoros: "o elevado acima de nós".

Um asteroide é o que tem a forma (o sufixo "oide" vem do grego eidos) de uma estrela (em grego, aster).

E o que asteroides e meteoroides têm a ver com os cometas? Os cometas são corpos de fraca luminosidade que giram em torno do sol. Sua cauda luminosa parece uma cabeleira comprida, e é provocada pela radiação e pelos ventos solares. A palavra vem do grego cometes, "cabeludo".

Um asteroide pode ser, entre outras possibilidades, um cometa "cansado da vida", depois de ter esgotado seus componentes voláteis.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As raízes do sofrimento

Dizia o escritor francês Léon Bloy que "sofrer passa, mas ter sofrido não passa jamais". Diante das tragédias que o teatro do mundo oferece, ou dos dramas que ocorrem na minha vida, na sua, na vida das pessoas mais próximas, sofrer passa... mas nunca nos libertamos totalmente do sofrimento.

Em que medida a etimologia nos ajuda a entender essa realidade universal no tempo e no espaço?

Supõe-se que existia no latim vulgar a expressão *sufferere, que derivou do latim clássico sufferre, formado de sub- ("sob", "embaixo") e ferre ("levar", "conduzir"). O sofredor sente a dor sobre si. A ideia de estar sob a cruz, levando-a, é imagem recorrente: cada um tem de carregar sua própria cruz.
Estar submetido ao sofrimento é sentir-se por baixo, empurrado para o chão. É nestas horas incertas que valorizamos a presença dos que nos amam, e não temem se colocar sob a mesma dor, para nos ajudar a caminhar.

Ter sofrido é não esquecer a tristeza e a dor, mesmo quando já se diluíram no passado. Porque ainda carregamos a lembrança da dor, podemos ser solidários com quem está sobrecarregado.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Fique quieto, bicho-carpinteiro!

Foi com surpresa que ouvi um intelectual brasileiro afirmar, em um popular programa de tv, que a frase "estar com bicho-carpinteiro" ou "ter bicho-carpinteiro" seria proveniente de uma outra: "estar com ou ter bicho no corpo inteiro".
A pessoa irrequieta, que não consegue ficar parada por muito tempo, teria algum bicho dentro de si. Que bicho seria esse, não se sabe. Talvez uma lombriga que deixaria a criança agitada, pulando para lá e para cá?

No entanto, a expressão correta é esta mesma: a pessoa tem bicho-carpinteiro. Este escaravelho, em seu estágio larvar, corrói troncos e cascas de árvores com incrível persistência. Esse comportamento faz lembrar alguém que não sossega.

Reinaldo Pimenta, no primeiro volume de A casa da Mãe Joana (Editora Campus), afirma que a pessoa agitada pareceria alguém que "estivesse sendo roída por dentro por esse inseto". Mas então as árvores ficariam agitadas se houvesse dentro delas algum bicho-carpinteiro. Não é o caso.

A palavra bicho veio do latim vulgar *bestiu, que se refere à bestia do latim clássico, isto é, "animal". E carpinteiro remete ao latim tardio carpentarius artifex, o fabricante de um veículo de duas rodas, puxado por cavalos, o carpentum, em geral para uso de mulheres.

sábado, 8 de setembro de 2012

Etimologia encrenqueira

Às vezes, diante de certas hipóteses etimológicas, convém dizer que a origem é obscura, que os estudiosos ainda não chegaram a um acordo... Ou então pode dar encrenca!

Esta palavra, por exemplo, é atribuída pela jornalista canadense Isabel Vincent no livro Bertha, Sophia e Rachel: a sociedade da verdade e o tráfico das polacas nas Américas (Editora Relume Dumará, 2006) a um dizer em iídiche, “ein krenk” (“um doente”), que as prostitutas judias sussurravam entre si quando aparecia na zona um cliente suspeito de ter alguma doença venérea.

Para Márcio Cotrim, no seu livro O pulo do gato 2, quando alguma prostituta polonesa da zona do meretrício carioca estava com um cancro (doença venérea) alertava possíveis fregueses com a seguinte frase: "Ich habe ein Kranke", isto é, "Eu tenho um cancro".

O escritor e acadêmico Raimundo Magalhães Júnior, em seu Dicionário brasileiro de provérbios, locuções e ditos curiosos, afirma que "encrenca" veio da Argentina, uma gíria por sua vez proveniente do catalão enclenque ("deitado", "acamado por doença", "sem forças"). Etimólogos espanhóis ensinam que enclenque terá vindo de um distante cranc (provençal), significando "coxo" e "impotente".

Ao chegar em terras sul-americanas, enclenque arrumou alguma encrenca e assumiu os significados variados de "situação confusa", "dificuldade", "tumulto" ou "intriga".

Há ainda uma outra conjectura, defendida por Mansur Guérios em seu Dicionário de etimologias da língua portuguesa. Escreve ele: "Mais razoável é admitir um verbo hipotético no português *crencar (e daí com prefixo encrencar), continuador de um latim *clinicare que se basearia em clinicus, 'doente acamado'."

domingo, 2 de setembro de 2012

Uma questão de fé

Pelo formspring recebo uma pergunta sobre a origem da palavra "".

Podemos falar em  no sentido religioso, ou no sentido de confiança humana, quando dizemos que alguém é fidedigno, digno de (da expressão latina fide dignus).

Neste segundo sentido, uma pessoa falsa, que atua de má-, pratica a perfídia, palavra esta que provém de per fidem decipere: "abusar da confiança de alguém para enganar".


Já a virtude teologal da , segundo o pensamento cristão, é um ato de confiança sobrenatural em Deus, ou o próprio conteúdo em que se acredita, e daí a expressão "depósito da ". Do ponto de vista dos antigos romanos, fides não tinha, obviamente, esse valor transcendental, acrescentado pelos cristãos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Filho de coruja não tem pai?

O povo diz que "filho de coruja não tem pai", ou "coruja não tem pai". O pai tem vergonha de filho tão feio. Mas talvez no Dia dos Pais ele se arrependa e volte para o ninho!

No início deste blog, em 2010, postei algumas considerações sobre a mãe etimológica; agora é o momento de falar brevemente sobre a palavra "pai".

Presume-se que a criança pequena associa o som "pa" à presença do pai, em contraste com o "ma" (macio...) de sua mãe. Se a mãe está associada ao alimento que vem no mamilo (o leite), também o pai é visto como quem traz alimento ("papá" é comida, e em Portugal é o modo como se fala "papai"). Um alimento talvez mais sólido.

Os etimólogos lembram que a raiz "pá" do sânscrito, vinculada às ações de "alimentar", "dar comida" e "proteger", encontra-se na origem dessa história.

domingo, 22 de julho de 2012

Lutar com palavras

Leandro Paiva, leitor deste blog, escreveu: "Dedico boa parte do meu tempo à pesquisa sobre aspectos biológicos e culturais sobre lutas, tendo, inclusive, escrito um livro sobre o assunto. Estou em busca da etimologia, dentro do meu segmento, das palavras "lutas", "artes marciais" e "modalidades esportivas de combate". Poderia, por obséquio, me ajudar? Formalmente o citarei como referência. Atenciosamente, Leandro."


Caro Leandro, espero que a etimologia o ajude nessa luta com as palavras. 


Vejamos primeiramente "luta". Do latim, lucta tornou-se luita em português antigo e depois "luta". Significa "combate", "esforço", "empenho". A luta pode ser entre dois exércitos, duas pessoas, ou da pessoa consigo mesma para atingir algum objetivo.


Quando falamos em artes "marciais", estamos nos referindo ao deus Marte, o deus da guerra para os romanos. Tais artes estão relacionadas, portanto, ao espírito combativo e corajoso.


"Combater", em latim combattuere, nasceu da combinação de com e battuere. Lutar contra alguém é opor-se, bater-se com alguém, combater. A palavra latina battuere, além de "bater", tinha um significado no campo sexual: "ter relações com uma mulher". Isso explicaria o fato de "espada" e "trabuco", armas de combate, serem usados como sinônimos de pênis.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Ah, moleque!

Pelo Facebook, Hugo Périssé me pergunta: "Gabriel, gostaria de saber a etimologia da palavra 'moleque'."


Meu caro Hugo, a palavra vem do quimbundo (língua falada em Angola) muleke, "garoto", "filho". Sobrepôs-se a "curumim", de origem indígena, com o mesmo sentido de "menino".


A palavra "moleque", no Brasil, ficou inicialmente associada ao filho do escravo, ao negrinho, e depois ao menino solto, malcriado, travesso. O preconceito promoveu a conotação pejorativa da palavra (com especial força nas discussões entre políticos), designando o adulto irresponsável, vagabundo, ordinário, canalha etc.


Curiosamente, "moleque", no português moçambicano, não significa "criança" nem "rapazote", mas "empregado doméstico" ou "lacaio".

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O ser da seriedade

Uma especulação etimológica intencionalmente brincalhona poderia sugerir uma relação entre o verbo "ser" e as palavras "seriedade" e "sério". De fato, a pessoa séria quer ser alguém, quer ser respeitada, tem densidade psicológica, ética e ontológica...


Fala sério! Tudo isso é brincadeira! Porque o adjetivo em questão vem do latim serius, "sério", "grave", "importante". Uma pessoa séria é alguém cuja palavra tem importância e peso. A seriedade está relacionada com a sisudez e com a gravidade, e com a consciência clara do que é honrado.


Um profissional sério cumpre seus deveres, pondera antes de agir, reflete antes de falar, é confiável. Roupas sérias são sóbrias, recatadas. Um problema sério merece especial atenção.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Uma rima não é boa pista etimológica

Circulam na web etimologias fantasiosas que nos fazem pensar (e divulgar!) que a palavra "aluno" tem a ver com "falta de luz", ou que "religião" remete à ideia de religação entre a terra e o céu. Semelhanças fonéticas não garantem verdades etimológicas.

Já li em mais de um lugar virtual que "mágoa" provém de "má água", uma água nociva, podre. Guardar mágoa seria reter na memória sentimentos que envenenam por dentro. Não quero magoar ninguém com esta postagem, mas apesar da sugestiva rima "água-mágoa" (que Chico Buarque canta em Gota d'água)... a conclusão etimológica é absolutamente falsa!

A palavra "mágoa" vem do latim macula, e inicialmente tinha o mesmo sentido da antiga palavra: "mancha", "nódoa", "erro", "defeito". No contexto cristão, significava "pecado": um bom cristão deve apresentar-se sem mágoa diante do tribunal de Deus...

"Mácula", com a mesma origem, contém esses mesmos significados ligados a impureza e desonra. (Basta lembrar que Maria Imaculada é aquela que jamais pecou pois nasceu sem mácula alguma.) O curioso é que "mágoa" foi mais além, e passou a designar também "desgosto", "tristeza", "amargura".

Uma pessoa magoada é aquela que sofre as consequências dos erros dos outros, das ofensas que outros lhe fizeram, dos equívocos alheios, das máculas produzidas pelo comportamento grosseiro de alguém.

sábado, 30 de junho de 2012

Coincidências e incoincidências


Semelhanças entre palavras não significam necessariamente origem etimológica comum. "Gregário" nada tem a ver com "grego" e "biscoito" não se refere a um "coito" duplo. Trata-se de coincidências incoincidentes...


Mas nem sempre é assim...


Outro dia, por exemplo, perguntaram-me se haveria alguma base etimológica que reunisse  "medicar" e "meditar". Quem medita de certo modo se medica? Para medicar é preciso meditar?


"Talvez haja alguma relação no que poderia ser mera coincidência", respondi. E fui pesquisar.


Existia no imaginário dos antigos romanos uma deusa das curas, Meditrina, em cuja festa (no dia 11 de outubro) tomava-se uma mistura de vinho novo e velho, dizendo-se as seguintes palavras: "vetus novum vinum bibo, veteri novo morbo medeor" — "bebo vinho novo-velho e de velhas-novas doenças estou curado".


O verbo medere ("curar") está ligado ao adjetivo medicus, que remete por sua vez à arte da medicina (com destaque para as intervenções cirúrgicas) e à arte de curar pela magia. A poção é medicamento ou algum preparado mágico. Medicar tem essa dupla face.


Haverá algum ponto de contato, uma coincidência semântica entre "meditar" e "medicar"?


Meditar (meditari em latim) é uma concentração cuidadosa do pensamento, um refletir profundo, um exercício interior. É tradução do verbo grego medomai. O curioso é que este verbo grego e o verbo latino medere provêm da mesma raiz indo-europeia *med-, vinculada a muitos e variados sentidos: "curar", "medir", "pensar", "governar", "considerar"...


Numa visão integradora de todas as dimensões humanas, a doença é a perda de equilíbrio da pessoa, que se compõe de corpo e espírito. Meditar é medicar-se na medida em que a busca da verdade nos faz retomar o caminho da vida saudável.